ONDE DEU PT, FALHOU

.   E essa agora, sobram dólares!     
No ano eleitoral de 2002, os principais indicadores econômicos eram certamente piores do que hoje. Mas estavam todos melhorando e, de todo modo, não havia qualquer sinal de que o país estivesse perto de um calote, por falta de dinheiro, nas dívidas externa e interna. Ainda assim, no final de setembro, véspera das eleições em que Lula seria vencedor ? como todos sabiam ? a economia brasileira parecia à beira da falência múltipla de órgãos. A causa da deterioração foi exclusivamente o stress eleitoral ? o temor de que Lula optasse pela política econômica prescrita nos principais documentos do PT. O então candidato já havia lançado a Carta ao Povo Brasileiro, em que se comprometia com outra política, a que veio a ser efetivamente aplicada pelo ministro Antonio Palocci. Mas, em questão de dinheiro, sabe como é, seguro morreu de velho: o pessoal fez posição contra o real, fugiu dos ativos brasileiros e ficou à espreita. E foi todo mundo voltando ao normal na medida em que se comprovava, com fatos, o surpreendente desempenho da nova equipe econômica. Até chegar à semana passada, em que o risco Brasil caiu para menos de 10% do que era em setembro de 2002. Eis alguns números referentes ao ano das últimas eleições presidenciais, para se ter noção das diferenças. Em agosto de 2002, o déficit externo em conta corrente equivalia a 3% do Produto Interno Bruto, ainda um nível não confortável, mas estava em clara queda. Havia sido de 5% no final de 2001. As exportações cresciam. O superávit do comércio externo alcançava os US$ 10 bilhões. Os investimentos externos, é verdade, haviam caído pela metade, para a faixa dos US$ 10 bilhões, mas por conta da crise no mercado internacional. De todo modo, o governo brasileiro se defendera bem. As amortizações e pagamentos de juros da dívida externa pública somavam pouco mais US$ 22 bilhões para o final de 2002 e todo o ano seguinte. As reservas do Banco Central eram de US$ 39 bilhões e o governo ainda tinha em caixa do dinheiro do empréstimo do FMI, de US$ 30 bilhões. Portanto, todos os pagamentos estavam assegurados. Ainda assim, o C-Bond, então o principal título da dívida externa brasileira, foi negociado em setembro/02 a 52 centavos por dólar do valor de face. Ou seja, era papel pintado. A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) equivalia a 58% do PIB, nível elevado, superior ao resultado de 2001, mas já em queda. Além disso, o Tesouro Nacional tinha em caixa nada menos que R$ 70 bilhões, dinheiro que juntara justamente para formar um colchão de segurança. Isso dava para pagar todos os compromissos referentes à dívida interna até o final do ano, mesmo que o governo não conseguisse mais tomar um centavo emprestado ? o que era praticamente impossível, dada a existência de compradores compulsórios de títulos do governo. Ou seja, também aqui o risco de default era zero. Mesmo assim, a taxa de juros em reais simplesmente dobrou entre março e setembro de 2002. A Bovespa despencou de 14 mil pontos para 8 mil. O dólar escalou de R$ 2,30 para R$ 4,00. O risco Brasil, de 700 pontos para 2.400. E a taxa de juros em dólar subiu de 5% para mais de 30% ao ano. Sem contar a fuga de capitais. Lula ganhou, não deu calote, nem rompeu com o FMI. Houve outra crise: inflação, pela alta do dólar, e dificuldades de empresas com dívida em dólar. Fora por isso, aliás, que o governo precisara colocar papéis indexados ao dólar ? faltava a moeda americana. Hoje sobra. A situação foi mudando na medida em que o pessoal se convencia de que a política econômica do novo governo Lula era aquela mesmo que parecia, uma continuidade do Real, e até mais forte na ortodoxia em alguns pontos. No final de 2002, véspera da posse do presidente Lula, todos os indicadores já haviam melhorado. O dólar estava a R$ 3,60, o risco Brasil na faixa dos 1.400 pontos e a Bolsa passava dos 11 mil pontos. Tudo ainda pior do que o nível pré-crise, mas em franca recuperação. Até que se chegou na semana passada, com a Bovespa em torno dos 37 mil pontos (quase cinco vezes o nível da véspera da eleição de Lula), dólar a R$ 2,16 (quase a metade) e o risco Brasil a 226 pontos (um décimo da cotação de 31 de setembro de 2002). O C Bond, que valia 52 centavos por dólar, praticamente nem existe mais. O principal título da dívida externa, o Global 40, é negociado a mais de 130 centavos por dólar. Foram dois os movimentos da política econômica. De um lado, tratava-se de combater os efeitos da crise de confiança deflagrada em 2002 e só debelada, de fato, em 2004. De outro, manter a construção de uma política que vinha desde 1994, baseada no tripé controle da inflação (com BC independente na prática); redução do endividamento público, via superávit primário para pagar juros; e câmbio flutuante. O maior dano da crise eleitoral foi a inflação. O combate deixou seqüelas de baixo crescimento. Mas os espetaculares anos da economia mundial permitiram a expansão vigorosa das exportações e trouxeram os dólares utilizados para acabar com a vulnerabilidade maior do Brasil, as contas externas. Uma geração inteira de analistas e jornalistas viveu falando do ?estrangulamento do setor externo?, as crises sucessivas por falta de dólares. De repente, todos têm de lidar com o excesso de dólares ? e suas conseqüências, como o real valorizado. De todo modo, a decisão anunciada pelo governo na semana passada, de recomprar títulos de curto prazo da dívida externa pública, é uma sacada e tanto. Mas falta uma perna nessa política, que é maior abertura para as importações ? é preciso gastar os dólares. Mas aqui a diplomacia vai na direção errada. Ideologizada, não vai atrás dos acordos de livre comércio. Continua sendo certo, porém, que o país deixa para trás a dívida externa, para se concentrar na solução da dívida interna. E aqui, a perna que falta é a redução de gastos públicos e a melhoria de qualidade. Também isso piorou. Ou seja, onde a política econômica foi do PT, falhou. Não é fácil. Publicado em O Estado de S.Paulo, 13 de fevereiro de 2006

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