O VOTO DO BOLSO VAI PARA LULA

. O tempo ajuda Lula    
Não é nada brilhante e está longe das promessas do governo, mas é fato que: a economia está gerando empregos; os salários reais estão em alta; a inflação está no chão; e o crédito concedido às pessoas físicas, este sim, aumentou espetacularmente nos últimos três anos. Resulta daí um óbvio sentimento de conforto econômico. Ou seja, o voto com o bolso vai para o presidente Lula, sobretudo o voto dos mais pobres.     
Tome-se o caso da inflação. Medida pelo IPCA, que mede o custo de vida para famílias com renda de até 40 salários mínimos, a inflação dos 12 meses terminados em agosto último foi de 3,8%, muito baixa. Mas medida pelo INPC (renda de até seis mínimos), foi ainda menor, de apenas 2,8%. Quando caem os preços de alimentos, todos  se beneficiam, mas a percepção positiva é maior entre os mais pobres, em cuja renda a alimentação tem um peso maior. Igualmente, o crédito pessoal expandiu-se para as classes C e D.     
A última edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) mostrou que todas as faixas de renda tiveram aumento real em 2005 sobre 2004, com a média de 4,6%. Mas a maior alta beneficiou os 50% mais pobres. O grupo das pessoas colocadas entre os 20% e 30% mais pobres, com renda média de R$ 299,00, teve ganho superior a 10% – efeito do reajuste do salário mínimo.     
Acrescente-se ao cenário a Bolsa Família, para os muito pobres, e se verifica, de novo, que o voto com o bolso vai para Lula. Quando se olha o conjunto da economia, entretanto, pode-se perguntar: o pessoal se satisfaz com tão pouco? É que, de fato, a economia cresce a taxas medíocres. Tome-se o caso do emprego. Pelos números do IBGE, 20,5 milhões de pessoas estavam trabalhando em agosto, nas seis principais regiões metropolitanas, contra 19,9 milhões um ano atrás. Portanto, uma geração de 600 mil vagas. Ao mesmo tempo, aumentou o número de desempregados, pessoas que procuraram trabalho e não o encontraram. Eram 2,4 milhões em agosto último, contra 2,045 um ano atrás. O que isso significa? Que a economia gerou empregos, mas não na quantidade necessária para atender o crescimento da demanda. Funciona assim: quando pessoas percebem que o mercado está melhorando ? um amigo, um parente, o vizinho conseguiu vaga ? mais elas se animam a procurar emprego. Com isso cresce a população economicamente ativa e, na sequência, aumentam as taxas de ocupação e de desemprego. Um conforto e uma frustração, mas o pessoal continua animado para procurar. Em resumo, a economia não está decolando, não há investimentos suficientes para garantir crescimento futuro, as contas públicas vão criar problema mais à frente (inclusive por causa do forte aumento do salário mínimo) e houve piora na educação, indicada na PNAD. Olhando para o médio prazo, o país não está ganhando a luta pelo crescimento e redução da pobreza. Mas a recuperação da economia de 2004 para cá traz um alívio imediato especialmente para os mais pobres. Vai daí que Lula ganhou imunidade completa? Não. Em dezembro último, a avaliação do governo Lula estava no negativo: 29% classificavam a administração como ruim/péssima, contra 28% de bom/ótimo. O ambiente econômico já era, no essencial, como o de hoje. O rendimento médio real, por exemplo, cresce desde 2004. Idem para o número de pessoas trabalhando. O crédito estava no pico da expansão. Assim, a avaliação negativa só podia ser o efeito da crise do mensalão e seus desdobramentos, incluindo a queda de Antonio Palocci. A crise havia sido detonada em junho, com a entrevista de Roberto Jefferson. Portanto, foi um semestre inteiro de escândalos e quedas de ministros do primeiro escalão, que terminaram por abater o governo. Nas pesquisas eleitorais, Serra chegava a bater Lula. De lá para cá, o que mudou? O conforto econômico melhorou, com o salário mínimo, por exemplo, e a inflação ainda mais baixa. O presidente foi à luta, com as famosas bondades (salários para o funcionalismo) e uma enorme campanha de propaganda, envolvendo todas as maiores estatais. Mas o ponto mais importante esteve na política: a crise desviou-se do presidente e do PT, foi mais para o Congresso. Com a hesitação da oposição, Lula ocupou espaço e avançava para uma vitória sossegada. O escândalo da compra do dossiê foi o fato inesperado. E que pode sim derrubar Lula, assim como a primeira crise do mensalão o alcançou. A questão é o tempo que leva para chegar aos eleitores. Publicado em O Globo, 28 de setembro de 2006

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