A CAMPANHA, O GOVERNO FHC E O GOVERNO LULA

. Governo FHC só apareceu na campanha para apanhar O primeiro programa de tevê da propaganda eleitoral de José Serra deveria começar com as imagens do último programa da campanha de Fernando Henrique Cardoso em 1998. O filme foi concluído e aprovado pela equipe de produção. FHC não viu, mas foi informado e gostou. O filme, como se sabe, ficou inédito. Não foi ao ar nem no início, nem no final da campanha. Caiu nas pesquisas de qualidade – aquelas em que pequenos grupos de pessoas, representativos dos diversos estratos sociais, são reunidos em salas fechadas para ver o filme e debater as questões colocadas pelos pesquisadores. Segundo tais pesquisas – e, sobretudo, segundo a leitura do pessoal da campanha – o povo queria mudança e não identificação com o desgastado governo FHC. A questão é: por que o senador José Serra e seus conselheiros políticos aceitaram tão prontamente esse veredicto das pesquisas? A resposta é simples: Serra e seu pessoal também não gostavam do governo FHC. Muita gente dirá que, de todo modo, seria suicídio fazer uma campanha contrariando a opinião popular, tal como manifestada nas pesquisas. Mas, como bem sabem os especialistas nessa área, não é simples ler pesquisas. As dificuldades vão desde a formulação das perguntas até a interpretação das respostas e a formulação do que se poderia chamar de conclusão geral. Também não é simples derivar daí uma linha de propaganda.Com frequência, o viés do autor original da pesquisa influencia todo o processo, da pergunta à leitura final e escolha da campanha. Além do mais, se o único comportamento político possível fosse seguir o que dizem as pesquisas de opinião, então não precisaríamos mais de lideranças, nem de eleições e, pois, nem de campanhas. A opinião pública se forma em resposta a séries infinitas de acontecimentos econômicos, sociais e psicológicos. Mas há um outro fator decisivo para a formação e, sobretudo, para a mudança da opinião pública: o poder de convencimento e persuasão dos verdadeiros líderes. Alguns exemplos: se fosse apenas seguir as pesquisas, o então chanceler alemão Helmut Kohl não teria promovido a unificação plena das Alemanhas e nem eliminado o marco para aderir à nova moeda européia, o euro. Na Inglaterra, as pesquisas mostram que a maioria da população é contra trocar a libra pelo euro. O que faz o primeiro-ministro Tony Blair? Está em campanha para convencer a população que a adesão ao euro é o melhor caminho. Vai encarar um plebiscito. Há uma infinidade de outros exemplos nessa direção. Indicam o seguinte, para o nosso caso: a campanha tucana poderia ter assumido o desafio de tentar mostrar ao povo que o governo FHC acumulava realizações que não estavam bem avaliadas ou compreendidas; e, segundo, que toda nova política deveria se fazer a partir daquelas realizações. Difícil? Claro. Mas as lideranças políticas e seus marketeiros, aqui sim, bem orientados, servem justamente isso. Serra é uma liderança de peso e história, assim como muitos de seus companheiros, e contava com marketeiros de primeira. Portanto, não lhe faltava competência política nem técnica. Mas para encarar aquele desafio de tentar mudar a imagem do governo FHC, seria preciso que Serra e seu pessoal acreditassem que o governo havia sido um êxito. E eles não acreditavam. Serra explicitou durante a campanha sua célebre divergência com a política cambial (do real valorizado) do primeiro mandato de FHC. Disse também que uma vez eliminada aquele política, a divergência desaparecera. Mas não foi simples assim. Serra e boa parte dos tucanos simplesmente nunca gostaram da orientação geral imprimida pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e sua equipe. Não gostaram, por exemplo, da abertura do comércio externo (considerada exagerada e sem a devida proteção à indústria nacional). Também não gostaram de se usar o dinheiro da privatização apenas ou principalmente para o pagamento de dívidas. (Lembram-se quando, num debate, Serra não respondeu quando lhe perguntaram o que o governo FHC havia feito com a montanha de dinheiro da privatização?) O senador e seu pessoal também sempre reclamaram da falta do “ativismo governamental”, isto é, queriam mais intervenção do Estado na economia, seja para apoiar indústrias locais com proteção ou financiamento público, seja para impor regras de controle do mercado. Não por acaso, tão logo chegou ao Ministério da Saúde, Serra tascou um congelamento de preços de remédios – prática que a Fazenda de Malan sempre considerou ineficiente por causar mais problemas do que benefícios. Para resumir, com uma história exemplar. Durante a campanha, economistas da linha mais intervencionista, muitos ligados à Unicamp, diziam que estariam no governo quer ganhasse Lula, quer ganhasse Serra, pois a política econômica seria a mesma, garantiam. Note-se que, durante o segundo turno em especial, Serra atacou Lula e o PT no quesito falta de competência, não no conteúdo das propostas, muito parecidas em diversos pontos. Por exemplo, os dois candidatos falavam a mesma coisa quando prometiam forte intervenção do governo para estimular a geração de empregos. E é assim, pensou o eleitor, melhor votar naquele que nunca esteve no governo, gostando ou não. Tudo considerado, o governo FHC só entrou na campanha para apanhar. Não é que o candidato tucano não o defendeu. Na verdade, não o apresentou ao eleitorado. Resultou, assim, uma campanha que não ajudou o país e pode atrapalhar o novo governo. Pareceu que o governo FHC foi um enorme desastre indecente e que o governo Lula será uma linda reconstrução, um novo e decente Brasil. Um não foi, o outro não será. Na verdade, o governo Lula será eficiente se for uma continuação de FHC – um avanço a partir de bases já estabelecidas, inclusive na área social. Mas isso exige, de um lado, o resgate do governo FHC (que talvez já esteja começando) e, de outro, um abatimento nas enormes expectativas pós-eleitorais. São os temas do próximo artigo, que este já foi longe. Publicado em O Estado de S.Paulo, 11/11/2002

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