TRANSIÇÃO EM CUBA

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Capitalismo
em Cuba?

Uma das primeiras medidas tomadas por Deng Xiao Ping, quando iniciou as reformas econômicas na China, no final dos anos 70, foi liberalizar a atividade agrícola. O país literalmente passava fome depois do desastre da Revolução Cultural, com as fazendas estatais quase paradas, quando o novo governo liberou geral. Informou que as famílias poderiam produzir por conta própria e, mais importante, vender seus produtos no mercado livre, em vez de entregá-los ao governo ou ao Partido Comunista. A produção decolou imediatamente e nunca mais foi reestatizada.
Os cubanos não estão propriamente passando fome. Mas todo mundo sabe que a produção de alimentos é precária, que as fazendas coletivas não dão conta da demanda há muito tempo e que as famílias lutam diariamente para obter um mínimo de refeições. Não por acaso, Raul Castro está tentando introduzir alguma liberalização no campo. Como ele mesmo disse, tenta imitar o modelo chinês ? a introdução da produção capitalista, mas sob o controle político total do Partido e do Estado.
Para a liderança cubana e para os quadros do regime, essa é, de longe, a melhor opção para a era pós-Fidel. Está na cara que não podem deixar tudo como está, embora essa possa ser a vontade de Fidel. Ele só aceitou a liberalização limitada no início dos anos 90 porque Cuba estava empobrecendo com a perda do dinheiro soviético. Quando as coisas melhoraram um pouco e, sobretudo, quando Hugo Chavez resolveu o problema crucial da falta de energia, fornecendo combustíveis quase de graça, Fidel voltou tudo para trás.
Sem Fidel, entretanto, não há como ignorar mais uma situação muito difícil. Nenhum país vai longe dependendo da exportação de níquel, de um turismo limitado e da boa vontade de Chávez. E para falar francamente, Cuba é um fracasso. Não consegue produzir, nem importar aquilo de que sua população precisa, de roupas e alimentos a computadores, celulares e internet. Mesmo os sistemas de educação e saúde estão em decadência, porque o governo não consegue pagar os custos, incluídos salários decentes para professores e médicos. E, finalmente, pessoal, é preciso reparar. Não faz sentido uma ditadura socialista tipo guerra-fria em pleno século 21.
A base da arrancada chinesa foi importar tecnologias e capitais estrangeiros. Havia farta disponibilidade desses fatores, inicialmente nas praças de Hong Kong e Taiwan, ali ao lado. Mas logo o enorme mercado potencial chinês atraiu as companhias japonesas e todo o capital ocidental, muito especialmente das empresas de origem norte-americana. Sim, a China continuava uma ditadura, entrar lá exigia negociações e acordos com o Partido e o governo, mas, já pensaram?, quando aqueles milhões de chineses começassem a produzir e a consumir, ia dar muito dinheiro.
Há capitais para Cuba bem ali ao lado. Há quase 1,5 milhão de cubanos na Florida, quase todos em Miami, onde formaram uma classe média (e alta) ativa e empreendedora. Estão integrados na economia local, mas têm famílias e guardam laços com a Ilha. Alguns conseguem driblar o embargo americano e as restrições cubanas e já têm negócios por lá. E todos estão ansiosos para despejar dinheiro novo. Assim como a maioria dos cubanos de Cuba também espera por esses recursos.
Mas Cuba é uma gota diante do oceano chinês. Uma coisa é tolerar a ditadura de um país distante, pronto a se tornar uma potência global. Outra é tolerar o regime de uma ilhota no quintal, isso depois de 50 anos clamando por democracia. Sem contar que os cubano-americanos se integraram de fato à democracia local. São senadores, deputados, prefeitos, eleitores vivendo numa sociedade livre.
Resumo da ópera: será difícil para o governo americano suspender o embargo antes que a liderança cubana ao menos dê os passos iniciais de uma liberalização política. Será difícil para os cubano-americanos aceitarem, por exemplo, um governo Raul Castro sem qualquer mudança. Do outro lado do oceano, será igualmente difícil para os sucessores de Fidel abrirem as portas para os ?traidores de Miami?.
O quadro, portanto, exige flexibilidade de todos. A boa notícia é que recente pesquisa mostrou que mais de 60% dos cubano-americanos apóiam uma transição negociada.

Publicado em O Globo, 21 de fevereiro de 2008

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