OPOSIÇÕES SEMPRE DO CONTRA

. Baixo Astral   A partir desta semana o governo vai pedir que os brasileiros economizem energia, com a seguinte mensagem: se todos fizerem agora um pequeno sacrifício voluntário – como não ligar o ar condicionado – evitaremos um enorme sacrifício compulsório, que será a suspensão do fornecimento de energia por algumas horas ao dia. Como nos sairemos? Não é uma questão trivial. Em qualquer sociedade, quando se pede um sacrifício para todos, cada pessoa fica diante da seguinte situação: se a maioria colaborar e eu não, eu terei o benefício sem o sacrifício; se a maioria não colaborar e eu sim, terei feito o papel de trouxa. Assim, se um indivíduo acha que a ampla maioria vai economizar energia, ele tem o incentivo para não colaborar. Ele verifica que seu ato pessoal não muda o conjunto, de modo que continua tomando banho quente de uma hora. E se o indivíduo acha que ninguém vai apagar uma lâmpada sequer, ele obviamente também tem o incentivo para não desligar as suas. Portanto, do ponto de vista do interesse individual, a decisão de cada um será a de não economizar energia. E todos caem no racionamento. O que muda esse cálculo individual? O sentimento de respeito ao outro, a consciência de que viver em sociedade requer certas obrigações. Ou seja: responsabilidade social, espírito público, solidariedade, compromisso com o país, generosidade. Como estará a sociedade brasileira nesses quesitos? As pesquisas de opinião têm mostrado que o brasileiro está mais para otimista. Na maioria, os entrevistados dizem antever um futuro melhor tanto para sua situação pessoal quanto para o país. E quem espera coisas melhores à frente naturalmente está mais propenso a colaborar. Mas a mídia e o ambiente político exprimem algo diferente. Não se trata simplesmente do sentimento contrário, algo como pessimismo ou má vontade com o país. Mesmo porque há muita divisão. Há veículos e grupos políticos mais animados, outros céticos, outros pessimistas, como seria normal encontrar em qualquer país. Sente-se, entretanto, que há algo de anormal por aí: ânimos exaltados, o debate tão dividido que não se encontra nenhuma base de acordo, disputas políticas na base do tudo ou nada. Na história dos países, isso acontece quando se está numa situação de crise profunda, à beira de uma catástrofe, uma guerra civil. Não parece que o Brasil esteja sequer perto desse ponto. Ainda agora saiu a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, mostrando que a vida dos brasileiros melhorou. Sim, a desigualdade social diminuiu só um tantinho de nada mas, caramba gente, todos os indicadores sociais, todos, melhoraram. Também é verdade que tivemos dois anos recentes – 1998 e 1999 – de desempenho econômico bastante ruim. Ainda assim, comparando com outros países que passaram por crises no mesmo período, a situação aqui foi melhor. (Como? Menos ruim? Pois é…) Na Coréia, por exemplo, a produção nacional afundou numa recessão. Aqui, a produção não cresceu ou cresceu pouquíssimo. Mas a sensação da crise, tal como expressa na mídia e no ambiente político, foi – e permanece – pior aqui do que lá, ainda que a economia brasileira esteja em um claro processo de crescimento. Outro exemplo notável surgiu nas últimas semanas. De certo modo, a crise argentina tem provocado mais estragos no mercado financeiro brasileiro do que no argentino. Na última sexta-feira, o ministro Domingo Cavallo reclamou que a Argentina não recupera credibilidade mais rapidamente porque os brasileiros apostam contra. Pode não ser uma aposta maldosa, mas, de fato, no mercado brasileiro, a maioria acha que a crise argentina vai seguir até a desvalorização do peso, percepção que não existe na Argentina. Mas se a desvalorização ocorrer, isso certamente provocará danos ao Brasil, razão pela qual o pessoal aqui vai logo derrubando bolsas e puxando dólar e juros para cima. Por outro lado, todos concordam que os fundamentos econômicos hoje são melhores no Brasil do que na Argentina. E se é assim, por que diabos se antecipa por aqui uma crise tão forte quanto lá? Eis aí, um ambiente social e psicológico que tende para o baixo astral. De onde viria isso? Há muita sociologia a fazer, talvez muita psicanálise social – existe isso? – mas há também um ponto político. As oposições aqui parecem não distinguir entre governo e sociedade, governo e país. Todas as oposições, à esquerda ou à direita, ideológicas ou fisiológicas, em Brasília, nos estados ou nos municípios. Quem está fora do governo entende que a situação social e a vida das pessoas têm de piorar para que consiga paralisar, derrotar ou, de preferência, derrubar o governo. É verdade que quando as coisas vão mal, isso favorece as oposições. Mas as coisas não precisam ir mal para que as oposições vençam. Ou seja, não é verdade que para as oposições a única chance é aquela do quanto pior, melhor. Se fosse assim, Tony Blair não seria primeiro-ministro da Inglaterra, nem Gerhard Schröder estaria administrando a Alemanha. Ambos derrotaram governos conservadores que haviam acumulado uma impressionante sequência de bons resultados. Nos Estados Unidos, deixada à parte a característica do sistema eleitoral, George Bush elegeu-se presidente em oposição a um governo que administrou o maior período de prosperidade da história americana. Nenhum deles disse “é preciso mudar isso tudo que está aí”. Disseram: ok, viemos bem até aqui, mas temos coisa melhor. Isso equilibra a expectativa em relação ao novo governo. Ninguém espera uma revolução, mas apenas uma administração com novos ares e novas caras. Aqui, as oposições têm enorme dificuldade em reconhecer que algo vai bem. Isso é muito claro quando a oposição é feita pelo PT, mas tome-se o PSDB. Tem passado os últimos tempos acusando o PT, quase sempre com razão, de usar as propostas de CPI apenas com propósito de desestabilizar os governos de FHC e Mário Covas/Geraldo Alckmin. E não é que o PSDB achou muito legal uma CPI contra a prefeita Marta Suplicy no primeiro mês do governo dela? De seu lado, o PT paulistano denuncia a manobra golpista da CPI e diz que a greve dos motoristas e cobradores de ônibus, aliados de ontem, é uma conspiração dos patrões. Parece mesmo que é. Mas só agora? Isso vai desmoralizando os partidos, a política – o sujeito sai do governo e no dia seguinte está na mais ferrenha oposição e denunciando corrupção – de modo que, ao final, resulta o baixo astral, o mar de lama avançando sobre todos. O que nos devolve ao ponto de partida, o pedido de economia de energia que o governo FHC está fazendo. Sim, é o governo que pede, mas a atitude correta, quer você seja contra ou a favor do governo, da privatização, da Alca, do neoliberalismo, de São Pedro, é apagar as luzes. Talvez seja uma boa oportunidade para se começar a admitir que colaborar com o governo pode ser também colaborar com o país. Veremos. Publicado em O Estado de S.Paulo, 09/04/2001

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