O BRASIL CRESCIA, MAS DEU AZAR

. AZAR O que acontece na economia depende de decisões tomadas pelos homens e mulheres, quando assumem a condição de consumidores, investidores, especuladores, poupadores, empreendedores ou ainda gestores públicos de política econômica. Portanto, quando algo sai errado, não cabe falar em azar. Alguém terá tomado uma decisão equivocada. No Japão, por exemplo, as pessoas não gastam o suficiente. As famílias têm sobras de poupança e, se torrassem parte disso nos shoppings, a economia ganharia fôlego para crescer. Mas não o fazem. A explicação é insegurança. Insatisfeitos com o governo e com o ambiente político, escaldados por perdas sofridas depois que estourou a bolha do boom imobiliário e de ações nos anos 80, os japoneses hesitam muito antes de gastar ou investir. Isso prolonga a recessão, confirma as piores expectativas e dá razão a quem preferiu guardar dinheiro. E, entretanto, se todos desandassem a gastar e a inventar novos negócios, a economia decolaria, a recessão chegaria ao fim e tudo ficaria melhor. A menos que o governo estragasse tudo de novo. Assim, qual a decisão certa, qual a errada? Só se fica sabendo depois de algum tempo, mas está claro que não se trata de sorte ou azar. São comportamentos racionais, sempre, ainda que às vezes a lógica esteja equivocada. Na Alemanha, outro exemplo, até pouquíssimo tempo, as lojas estavam proibidas por lei de conceder grandes descontos. Isso mesmo, descontos proibidos por lei. Pode ter lógica: proteger as pequenas lojas de liquidações predadoras dos grandes magazines. Por outro lado, todo mundo sabe que, quando o consumidor se retrai, a principal arma do comércio é atraí-lo com descontos e prêmios. É justamente o que estão fazendo hoje por aqui as revendedoras de carros. Também nos Estados Unidos, em muitos setores, como de carros e computadores, as vendas têm sido sustentadas por campanhas caça-consumidor. E se evita a recessão com isso. Pois na Alemanha não podia. Agora derrubaram a lei. Como no início do ano, haviam aprovado uma redução na pesada carga de impostos, imagina-se que os consumidores, com dinheiro e descontos, voltem às lojas e ajudem a recuperar os negócios, que vêm em baixa há pelo menos quatro meses. De novo, decisões racionais, escolhas boas ou ruins. Assim, não se pode culpar o destino pelas atuais dificuldades da economia brasileira. Os nossos dois déficits – o das contas públicas e o das contas externas – não caíram do céu como um raio vingador, mas foram meticulosamente construídos por decisões econômicas tomadas por brasileiros ao longo de anos. Decisões políticas também, como eleger um mau governante ou um péssimo Congresso. Acontece e não é raro. A democracia não é um seguro contra erros dos eleitores. A vantagem do sistema é que permite corrigir na eleição seguinte. Talvez a principal restrição ao crescimento sustentado no Brasil seja a carência de poupança interna. E isso decorre do déficit do setor público. No lado privado da economia, empresas e pessoas poupam. Mas parte desse dinheiro vai financiar os títulos da dívida pública, que pagam bons juros exatamente porque o governo precisa de muitos empréstimos. Se não pagassem, sobraria mais para consumo e investimentos, de modo que a economia cresceria mais. De novo, déficit público não é azar. Mas, nestes dias, o crescimento está sendo atrapalhado pela falta de energia – e aqui, sim, andamos falando em azar. Trata-se da história das chuvas. Não foi pouca coisa: a escassez de chuva deste momento não é comum, foi a mais grave de muitas décadas. No limite, pode-se dizer que faltou chuva porque certas ações econômicas (muitos carros, muita química) afetaram o meio ambiente e secaram as nuvens. Mas aí já é apostar demais nas explicações racionais. Caramba, gente, com um pouco mais de ventos, talvez chovesse mais e… a economia cresceria mais. Não precisa o leitor ou a leitora me lembrar que, se o governo tivesse sido previdente, teríamos feito economia mais suave, talvez tivéssemos mais termoelétricas ou usinas nucleares, que não dependem das chuvas. Mas aqui há outra racionalidade. Valeria a pena investir pesado nessas alternativas para se prevenir de um raríssimo fenômeno, uma seca que ocorre uma vez a cada 75 anos? No caso, poderia ser mais eficiente apostar na sorte. Ou bater tambor para esperar as chuvas. Quero dizer que, se fosse tudo racional, talvez não fosse humano. A pessoa humana é razão, mas também emoção. Do mesmo modo, é lógica e acaso. Às vezes, você faz tudo certo e dá azar, as coisas saem erradas. Às vezes, a sorte corrige decisões equivocadas. Por exemplo, os Estados Unidos passaram toda a década de 90 em crescimento vigoroso. Nesse período, o Brasil foi purgando crises – superinflação, pacotes, moratórias, déficits, reformas. No final da década, quando o País embicou para um bom crescimento – a partir do final de 99 -, os Estados Unidos entraram em desaceleração. Aliás, a mesma coisa aconteceu com a Europa. Arrastou-se ao longo da década, aprumou-se no final, iniciou um ciclo de crescimento vigoroso, estava no auge quando os EUA começaram a puxar para baixo. Azar, claro. E, se não fosse assim, aqueles regimes de planejamento central teriam dado certo. Mas o que dá certo, embora nem sempre, é o capitalismo, uma soma de decisões individuais, pela razão e pela emoção. Pelo menos é mais animado assim. (Publicado em O Estado de S.Paulo, 20/08/2001)  

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