MUNDO AINDA A FAVOR

.  O mundo cresce mas também preocupa         
Estados Unidos, os países da Zona do Euro, Inglaterra, Japão e Canadá formam o clube dos ricos. Embora tenham apenas 13% da população mundial, respondem por aproximadamente metade de tudo que se produz no mundo. Há no grupo grandes exportadores, como Japão e Alemanha, e importadores líquidos, como os Estados Unidos, o shopping do planeta. Pode-se dizer, portanto, que o mundo vai bem quando esse seleto clube está em crescimento. E o quadro desta página mostra isso mesmo: crescimento.     
Não é a exuberância do ano passado, mas nem poderia. 2004 foi simplesmente o melhor dos últimos 30 anos, um raro momento em que todas as regiões, ricas e pobres, cresceram fortemente.  O período atual, portanto, é de desaceleração, mas em relação a números muito fortes. Em resumo, o Fundo Monetário Internacional, em seu último relatório sobre a economia mundial, definiu este ano como de ?crescimento robusto?.     
Mas desigual, mesmo no caso dos ricos. Os Estados Unidos, depois do extraordinário resultado do ano passado, continuam crescendo acima de sua média histórica de 3% anuais. Considerando que se trata de um Produto Interno Bruto de US$ 11,7 trilhões, qualquer um por cento aí já representaria  muita atividade econômica. Imaginem-se 4%, a média destes dois anos. É um dado decisivo para a prosperidade global: a maior economia, responsável por 21% do PIB mundial, mantém-se em expansão.     
Japão (6,9% do PIB mundial) e Zona do Euro (15,3%) vinham muito bem no ano passado, surpreendentemente bem, se diria, mas decepcionaram no segundo semestre. Voltaram ao normal, conforme a opinião bastante disseminada de que essas duas regiões trazem problemas estruturais que impedem um crescimento acelerado. Na Zona do Euro, a marcha lenta continua, especialmente no maior dos países que adotaram a moeda comum, a Alemanha. Mas o Japão voltou a surpreender, desta vez pelo lado positivo. As perspectivas de crescimento têm sido revistas para cima.     
Finalmente, Inglaterra (3,1% do PIB mundial) e Canadá (2%) vão bem ? com prognóstico de crescimento de 2,5% neste ano, mais ou menos a mesma coisa para 2006.     
Um pelo outro, pode-se dizer que há crescimento real entre as nações desenvolvidas e que essa é uma boa notícia para o mundo todo.     
O noticiário, entretanto, não reflete otimismo. Nem os relatórios das entidades internacionais, como o último da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, que reúne as nações industrializadas. O título do documento pergunta: ?Perdendo o equilíbrio e o momentum??     
Esse é o ponto: o crescimento convive com desequilíbrios locais e globais. Tome-se o caso dos EUA, a locomotiva. Sustentam déficits gêmeos, nas contas públicas e nas contas externas, superiores a 6% do PIB, simplesmente o dobro do que se considera o máximo tolerável.     
Significa que todos lá, governo, empresas e pessoas, estão gastando mais que recebem. A poupança doméstica é zero. Assim, gastos e investimentos crescem com poupança alheia, o país e os consumidores se endividam, aproveitando as baixas taxas de juros. Ora, em um determinado momento, parece fatal, os americanos terão que fazer o ajuste, isto é, cortar gastos e pagar juros mais caros. E quando isso acontecer, quando o shopping do mundo ficar vazio, o prejuízo será global. Por outro lado, boa parte da prosperidade americana está no mercado imobiliário. Construindo e comprando casas, com empréstimos a juros mais do que amigáveis, as famílias mantiveram a economia em funcionamento, mas há fundadas suspeitas de que se forma uma imensa bolha especulativa. A revista Economist, que vê essa ameaça há meses, relaciona novos dados: em abril, as vendas de imóveis usados cresceram 4,5%, chegando a 7,18 milhões/ano, um recorde. Preços dispararam. O custo médio de uma casa para uma família ultrapassou os US$ 200 mil pela primeira vez, com uma alta de 15% nos 12 meses concluídos em abril último. Isso sem contar os detalhes. Na Califórnia, dobrou o número de pessoas inscritas nos testes para se obter a licença de corretor imobiliário. Se furar a bolha, os preços despencam, os juros sobem, e a dívida das famílias explode. Perigo à vista? Não, não há nada tão grave no horizonte, disse o presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan. Para ele, não há bolha imobiliária, apenas ?espumas? em alguns lugares. Quanto aos déficits, o das contas externas, comentou, o mercado corrige. Já o déficit fiscal, esse sim exige ação política, isto é, corte de gastos, algo que, acredita Greenspan, será necessariamente feito. E como a inflação segue bem comportada, o presidente do Fed não vê motivos para acelerar a alta da taxa básica de juros, o que colocaria uma trava no crescimento local e afetaria o mundo todo. Para ele, a expansão americana segue bem ancorada em ganhos de produtividade, conforme disse no início de junho, para alegria dos mercados.. Já para a OCDE, não pode durar para sempre esse desequilíbrio global, representado pela combinação de déficits elevados nos EUA, financiados por enormes superávits na Europa, Japão e nos demais industrializados da Ásia, em um quadro de desvalorização do dólar impondo prejuízos aos que detêm ativos na moeda americana. Só o Japão tem reservas de US$ 818 bilhões, dois terços em títulos do governo e outros ativos americanos. China, mais Hong Kong, tem US$ 780 bilhões. Até quando toparão financiar os gastos americanos, perdendo dinheiro com a desvalorização do dólar? ? perguntam os que esperam o pior. Mas há um argumento não pessimista. Japão e China vivem, em grande parte, de vender nos shoppings dos EUA. Ou seja, têm todo interesse em manter as coisas como estão ou, pelo menos, têm interesse em colaborar com uma ação coordenada para resolver os desequilíbrios. Faz sentido. Por que haveriam de matar os principais fregueses? Parece lógico, mas também é verdade que nem sempre o racional prevalece na gestão dos negócios mundiais. Tudo considerado, fica assim: as nações ricas (50% do PIB mundial) estão em crescimento neste ano e devem acelerar um pouco em 2006, se não se  materializar nenhum dos riscos. Estes não são desprezíveis: uma forte desaceleração ou recessão nos EUA em consequência dos desequilíbrios locais e externos; estagnação na Zona do Euro e no Japão; aceleração da inflação mundial por causa do preço caro do petróleo; uma forte desaceleração da China. E se acontecer tudo ao mesmo tempo, as crises financeiras recentes vão parecer brincadeira. Qual a chance de ocorrer o pior? Para a maioria dos analistas, é menor do que a chance de que se consiga ir levando, uma crise aqui, um ajuste ali, mas sem desastres globais. Afinal, aqueles riscos não são de hoje. Estão aí há algum tempo, inclusive no ano passado, de crescimento mundial recorde. Há, portanto, argumento para pessimistas, otimistas e realistas. Escolha o seu. Publicado na revista Exame, edição 845, data de capa 22/junho/2005

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