ECONOMIA E VOTOS

. A ECONOMIA VAI BEM PODERIA IR MELHOR, MAS O QUE JÁ SE TEM ESTÁ MAIS QUE BOM PARA AS CIRCUNSTÂNCIAS Eis alguns dados confirmados pelos últimos indicadores: Inflação – fechará o ano na casa dos 6%, preços ao consumidor, medida do IBGE, e rigorosamente dentro da meta. Contas públicas – até novembro, o setor público fez um superávit primário de R$ 41,5 bilhões, quase R$ 5 bilhões acima da meta acertada com o FMI para o ano todo. Dezembro sempre é um mês de gastança, mas mesmo assim a meta está cumprida com folga. Crescimento – números do IBGE mostraram que o Produto Interno Bruto provavelmente crescerá algo perto de 4% neste ano, com desemprego em queda e início de recuperação da renda dos trabalhadores. Setor externo – contas equilibradas sem problema com a entrada de investimentos diretos e pelas captações do governo e de empresas. Em resumo: um ambiente de crescimento com estabilidade, tudo coroado pela decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros de 16,5% para 15,75% ao ano. Há problemas, claro. O ajuste das contas públicas foi feito pelo aumento de impostos e pelo extraordinário lucro da Petrobrás com a alta do preço do petróleo. O comércio externo continuou no vermelho. O Congresso fez uma lambança com o Orçamento da União para 2001, inventando receitas para aumentar despesas. E, para bater na velha tecla, há reformas a fazer, como a tributária. Mas o importante a notar é que, do jeito que está e com um cenário externo que foi adverso até pouco, o país cresce 4% com inflação em queda e sem detonar as contas públicas e as contas externas. Convém insistir: trata-se de uma rara combinação. Faz anos, muitos anos que o país não está assim, crescendo sem inflação e com perspectiva de repetir esse desempenho nos próximos dois anos. A coisa virou. E vai se formando o quadro para Presidente 2002 Já que as especulações estão abertas, eis aqui mais uma. Como todas as outras, esta também é baseada em alguma informação e muita análise, mas acrescentando-se o conhecimento do pessoal que cerca o presidente FHC. A primeira hipótese é que, apesar de toda a brigalhada do momento e, afinal, de sempre, a aliança PSDB/PFL/PMDB tende a se manter. A razão é realismo político: trata-se da única chance desses três partidos continuarem no poder em Brasília. Isoladamente, nenhum deles chega sequer ao segundo turno. A segunda hipótese é que o presidente Fernando Henrique será um grande eleitor. Em 2002, o país estará completando três anos consecutivos de crescimento consistente. Investimentos feitos agora estarão amadurecendo e – se algumas reformas forem feitas pelo caminho – as empresas estarão fortalecidos e procurando expansão. Nesse cenário, a popularidade do presidente subirá vários pontos e sua força política dentro do quadro eleitoral será ainda maior. A composição da aliança começa com uma dificuldade: há dois cargos na chapa, presidente e vice, para três partidos. Mas a dificuldade desaparece com a introdução de outros postos, como ministérios e, sobretudo, composições para os governos estaduais. Quem seria, tudo considerado, o candidato preferencial de FHC? Eis aqui a primeira especulação: o ministro da Saúde, José Serra – aliás lançado na semana passada pelo prefeito de Vitória, Luiz Paulo Veloso Lucas, tucano, reeleito com ampla maioria. É verdade que as relações entre FHC e José Serra passam por desentendimentos, mas erra quem enxerga aí possibilidade de ruptura. As desavenças vêm de longe – desde o primeiro governo FHC quando Serra não recebeu o posto que pretendia, o comando da área econômica. Mas convém lembrar que, depois, foi FHC quem insistiu para que Serra assumisse o Ministério da Saúde, na convicção de que ele faria um bom serviço – isso resolvendo dois problemas para o presidente: arrumar uma área social e dar visibilidade (e viabilidade política) a Serra. Considerando o desempenho do ministro até aqui, pode-se dizer que a estratégia funcionou. Em resumo, pode-se dizer, sem erro, que FHC considera Serra um quadro preparado para postos mais altos. Sob esse ponto de vista aliás, o ministro da Educação, Paulo Renato, também apresenta credenciais. Mas o que lhe falta é densidade política, por nunca ter sido sequer vereador. Quem poderia ser o vice de Serra, já que FHC, podendo, certamente vai querer encaminhar o cabeça de chapa? Eis a segunda especulação: vice do PFL, por exemplo, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney. É do Nordeste, é mulher, compõe em diversas searas políticas. E o PMDB? É a terceira e última especulação: o PMDB ficaria bem acomodado se levasse o governo de um Estado importante. Quer dizer, se a aliança para presidente se repetisse no Estado. No Estado mais importante, o PMDB tem um candidato bastante competitivo, o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer. Que tal? Sim, há uma objeção óbvia e do tamanho de um elefante, o governador Mário Covas, que além de não ter a menor vontade de ser sucedido por um peemedebista – e muito menos de ajudá-lo – acaba de lançar à presidência o governador do Ceará, Tasso Jereissati.
O óbvio candidato tucano em São Paulo é o vice-governador Geraldo Alckmin, mas há dúvidas sobre sua elegibilidade por ter sido assumido o governo no primeiro mandato de Covas. Sem Alckmin, o elenco do PSDB é fraco. E aí tem conversa. Além disso, sempre tem o segundo para compor. Enfim, essa é a história. Com um adendo: consta que Serra já conta com uma eleitora de qualidade, Ruth Cardoso. Veremos. Livre especular é só especular. (Publicado em O Estado de S.Paulo, 25/12/2000)

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