AGORA, É VER PARA CRER

. Bola quadrada O presidente Lula torrou seu capital político em 15 meses de governo. Até aqui, as pessoas consideravam ruim sua situação econômica e mesmo assim davam notas elevadas para o governo. Eram movidas pela esperança. Agora, continuam não gostando da situação pessoal e passaram a dar notas vermelhas para o governo. Entraram, portanto, na fase do ver para crer. Conclusão: o governo Lula não recupera mais sua popularidade na base do discurso, muito menos da propaganda positiva, mas só com emprego e renda. Isso não é palpite, é medida. A última pesquisa (Ibope/Rede Globo) mostrou que o índice de aprovação do governo (soma das avaliações ótimo e bom) caiu para 28% em março. E se em dezembro de 2003 apenas 36% das pessoas achavam que o governo estava fazendo a coisa errada, em março esse número subiu para 52%. Agora, os 36% são os que acham que o país está no caminho certo. Pode-se especular: a população estaria certa antes, quando depositava enorme esperança, ou agora, quando cobra resultados? É interessante, mas para o governo e para o país importa mais saber das possibilidades de recuperação de Lula e sua administração. E nisso, a hora não é boa. Abril oferece diversas dificuldades. Além das invasões do MST – e do curto-circuito decisório que provocam no ministério – há duas decisões complicadas a tomar, daquelas que sempre desagradam: os reajustes do salário mínimo e do funcionalismo público federal. Em circunstâncias normais, já seriam difíceis. Na emergência, na ânsia de mostrar resultados, podem ser desastrosas. Salário mínimo, por exemplo. É pago para cerca de 13 milhões de pensionistas do INSS. Assim, um aumento de 30 reais representa um custo mensal de quase R$ 400 milhões ou R$ 5,2 bilhões por ano – mais ou menos o dinheiro do Bolsa Família ou um pouco menos do que o governo tem para investimentos em infraestrutura.. A CUT pede R$ 300, o que elevaria o custo anual para R$ 10,4 bilhões. Dá para pagar? Dá, mas à custa de se eliminar todos os investimentos previstos para o ano, inclusive aqueles das emendas parlamentares (obras que deputados e senadores incluem no orçamento). Além disso, um aumento do salário mínimo é para sempre. Não faz sentido dizer que se vai pagá-lo com o excesso de arrecadação deste ano. Toda uma parte da arrecadação fica comprometida para sempre. E o mesmo vale para o reajuste do funcionalismo ativo e inativo. O governo sabe disso, é claro. Tanto que está limitando os reajustes do funcionalismo a determinadas a categorias e excluindo os aposentados de parte dos ganhos. Também se especula que trabalha com um mínimo de R$ 270, com um aumento de 12,5%, apenas um pouco acima da inflação do período. Mas uma coisa é limitar reajustes quando a aprovação do governo passa dos 50%, cenário do ano passado. Outra quando a popularidade está em baixa e a administração sob fogo dos amigos para mostrar alguma coisa. Acrescente-se ao cenário o abril vermelho do MST, e pronto: o governo Lula passa por um dos seus momentos mais difíceis. Agravante: o ministro Antonio Palocci, que comanda uma ilha de eficiência no meio de um mar de incompetência, só pode oferecer, por enquanto, ao menos, sangue, suor e lágrimas. Tudo indica que há uma recuperação econômica em curso, mas é moderada, em consequência mesmo da política em vigor. A idéia é sustentar a retomada numa sólida base fiscal e monetária, quer dizer, contas públicas controladas, dívida em queda e inflação baixa. Isso exige controle de gastos e juros calibrados para derrubar preços. Acredita o ministro, com base em boa teoria econômica, que uma recuperação nesses termos é mais sólida, aibda que mais demorada. Diz Palocci, portanto: calma, que as coisas estão se ajeitando e lá na frente vão dar certo. Responde o pessoal do fogo amigo: precisamos de tudo já. E a bola passa para o presidente Lula. Segundo Palocci, por exemplo, a decisão sobre o mínimo é exclusiva do presidente. Bola quadrada. Já o MST não passa nem bola quadrada para Lula. É só cacetada. E o governo parece reagir com a consciência culpada de quem acha que fez alguma coisa errada. Entrega tudo rapidinho. Primeiro, foi o anúncio de que a reforma agrária vai receber este ano mais R$ 1,7 bilhão, dinheiro que apareceu logo após as ameaças do inferno de abril. Depois veio o caso da invasão da fazenda da Veracel, no sul da Bahia, escolhida a dedo para atingir o coração do governo. A Veracel, uma associação de brasileiros com capital externo, não tem apenas uma fazenda produtiva. Trata-se, simplesmente, do maior investimento privado em curso na atual administração, US$ 1,2 bilhão para a produção de celulose e emprego. Seus dirigentes foram, em maio do ano passado, anunciar seus planos a um entusiasmado Lula. Pois o MST vai lá, derruba 1,3 milhão de pés de eucaliptos e depois sai mediante promessa do Incra de rápido assentamento das famílias em outro lugar. Líderes do MST manifestam-se satisfeitos com a solução, dizem que a invasão deu boa visibilidade ao movimento. E tudo bem. Quer dizer que pode invadir e destruir propriedade privada para fins de propaganda? Nem um inquérito? Estará a Polícia Federal ocupada demais com o caso Waldomiro? Alguém poderia pensar que os proprietários ao menos deveriam ser indenizados. Bobagem, não é mesmo? Eles são ricos e o preço da celulose está em alta, em dólar! Será isso que Lula vai dizer aos investidores? Publicado em O Estado de S.Paulo,12/04/2004

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