A VOLTA DO PROTECIONISMO

. O pêndulo anti-mercado

Alan Greenspan não tem dúvida: a alta forte e recente dos preços do petróleo ?é especulação?. Mais ainda: ele acha que o governo americano deveria estatizar as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac.
Teria o velho ?maestro do mercado? aderido à onda anti-mercado que se observa no mundo todo? Teria chegado à conclusão tardia de que o livre mercado é causa de todos os desastres econômicos atuais, da crise financeira à alta dos preços de energia e comida?
A resposta é não.
Greenspan entende que a especulação no petróleo ? feita pelos fundos de investimentos nos mercados de N.York e Londres ? ?é uma boa especulação?. Os especuladores, observa, estão simplesmente antecipando um aumento do preço que iria ocorrer de qualquer modo, devido à combinação de alta contínua do consumo e restrições na produção.
Para isso servem os mercados futuros, antecipar tendências. Os mercados vêem antes, por isso funcionam. Sinalizado que os preços do petróleo são cada vez mais caros, isso leva à contenção do consumo, primeira condição para que os preços cedam. Quanto antes comece esse processo, menos danoso para a sociedade.
E quanto às agências hipotecárias, que garantem mais de US$ 5 trilhões de créditos para a compra da casa própria? São empresas híbridas, controladas por acionistas privados, mas contam com apoio governamental definido em lei. Estão em dificuldades e simplesmente não podem quebrar, pois isso levaria além do limite a crise do setor imobiliário.
Logo, diz Greenspan, o melhor a fazer é eliminar a ambiguidade. O governo estatiza as agências, coloca mais dinheiro nelas ? sim, dinheiro dos contribuintes ? reorganiza e vende de volta no mercado privado. Melhor do que, por exemplo dar dinheiro aos atuais controladores das agências.
Claro, portanto, que Greenspan não é um neo-estatizante. Mas esse caso acende o debate ?mercado x estado?, ?liberdade de empreender x controle do governo?. Essa questão nunca deixa o cenário, mas as tendências mudam de lado.
Nos últimos anos, o mundo experimentou um crescimento espetacular, no ambiente de uma economia de mercado, globalizada e com uma fantástica expansão do comércio internacional. O fim do socialismo, nos anos 80, foi parte dessa história. Os ex-países socialistas entraram nos anos 90 em um acelerado processo de adesão à economia capitalista global. Milhões de trabalhadores, consumidores e empreendedores se incorporaram ao mundo do capital, isso representando um ganho na capacidade de produção e consumo.
Acrescente aí o tremendo ganho de produtividade produzido pelas inovações da Tecnologia da Informação, a ascensão dos emergentes, muito especialmente da China que, aliás, sabiamente, introduz o capitalismo desde o anos 80 ? e parecia definida a vitória final do livre mercado.
Aí começam a pipocar as crises e a bola volta para o outro lado: tudo culpa da fome de lucro de um mercado deixado por conta dos especuladores.
O colapso da Rodada de Doha é o fenômeno mais recente dessa história. Além dos assuntos específicos em torno dos quais não houve acordo, o fato é que vários países optaram pelo caminho protecionista, pela restrição aos mercados. Em muitos casos, mesmo quando os governos tentavam o caminho da abertura do comércio, ficaram sem margem de manobra por causa das reações internas.
O governo americano, por exemplo, só poderia topar cortes substanciais nos subsídios que paga aos seus agricultores se garantisse mercados internacionais abertos para esses mesmos agricultores e para seus setores industriais e de serviços. Só assim poderia enfrentar a acusação dos lobies protecionistas internos.
China e Índia, de seu lado, devem seu crescimento aos mercados globais, aos quais integraram seus setores mais eficientes. Ambas, porém, têm um enorme problema: milhões de pequenos e pobres agricultores, cuja produção é limitada, de má qualidade e cara. Uma abertura à importação de alimentos produziria um enorme benefício à maioria da população, que teria acesso a comida mais barata. Mas o que fazer com os pequenos e pobres agricultores?
Se fosse para repetir o que ocorreu pelo mundo afora, boa parte desses agricultores deve desaparecer. A produção agrícola moderna se faz com cada vez menos pessoas. As outras vão para as cidades, buscar mais educação e empregos na indústria, no comércio e nos serviços. É o que, afinal, acabará acontecendo.
Mas esse processo é doloroso, politicamente custoso e exige enorme competência dos governos para administrar a passagem da maneira menos problemática. Qual é o mais fácil? O que não dá problema imediato? Deixar todo mundo no campo, assim como estão, pobres e ineficientes, e comprar seu apoio político com alguma assistência.
Resta o problema dos alimentos mais caros para o conjunto da população, mas os governos sempre acham que podem controlar isso com instrumentos como tabelamentos e importações selecionadas. Além disso, o pessoal das cidades, por enquanto, está acostumado com essa situação.
E assim caímos no paradoxo de Doha. No momento em que o mundo precisa ampliar a produção de alimentos, fecham-se os mercados.
O pêndulo ficou no lado anti-mercado. E assim segue a história, até que todos percebam, mais uma vez, que o governo é ineficiente e que a restrição á livre circulação de capitais e de mercadorias gera estagnação.

Publicado em O Estado de S.Paulo, 04 de agosto de 2008

Deixe um comentário