OU BAGRES OU ENERGIA

Toda atividade econômica ataca o meio ambiente. Ou bagres ou energia

Vamos supor que se demonstre que a construção das hidrelétricas do rio Madeira vai matar os seus belos bagres. Qual a alternativa correta, sacrificar os bagres ou sacrificar a energia a ser gerada pelas usinas?
Ninguém gosta de colocar a questão dessa maneira. Todos evitam uma resposta direta, embora não seja difícil verificar que há um lado pró-bagres e outro pró-usinas. Mas como as partes não assumem claramente suas posições, o debate não termina.
O lado dos ambientalistas, digamos, não quer assumir que se pode condenar uma hidrelétrica crucial ao desenvolvimento do país por causa de alguns bagres. O outro lado, dos desenvolvimentistas, digamos, também não quer assumir que a necessidade de energia pode justificar a morte de algumas espécies.
Na conversa, os dois lados parecem dizer a mesma coisa, mas a ênfase e a ordem da frase denunciam o verdadeiro sentido.
Diz o ambientalista: ninguém pode ser contra o desenvolvimento, mas é preciso que seja com respeito ao meio ambiente.
Diz o outro: é claro que se deve preservar o meio ambiente, mas o país precisa de energia para crescer e gerar empregos.
Por isso a simplificação aqui proposta: ok, precisa combinar tudo, mas no final das contas como ficamos, com os bagres ou com as usinas?
Parece forçada, mas o objetivo é mostrar, de um lado, que a preservação do meio ambiente é, sim, uma dupla restrição ao crescimento: física, porque impede muitas obras, e econômica, porque encarece outras.
Assim como não há almoço grátis, também não há bagre grátis. A preservação tem um custo que precisa ser explicitado para que a decisão seja tomada com ampla perspectiva. Por exemplo: a falta de uma estrada ou de um porto encarece os custos de transporte, inviabiliza determinadas atividades, corta a renda de uma região, elimina empregos. Isso tem um preço que precisa ser medido para que se possa comparar com o que vai ser preservado. Ou seja, qual o preço de cada bagre preservado no Madeira, caso as usinas não sejam construídas?
Do outro lado, os desenvolvimentistas precisam admitir que toda atividade econômica ataca o meio ambiente. Não podem dizer: ora pessoal, os bagres saberão como subir o rio, a gente coloca umas calhas e tudo bem. É preciso, sempre, calcular o custo ambiental e mostrar o preço que se está empurrando para as gerações futuras.
Nenhum país se desenvolveu sem atacar o meio ambiente. A Europa matou seus rios. Tamisa, Sena, Danúbio tornaram-se imensos depósitos de lixo. Depois foram recuperados e hoje estão sob controle de regras rígidas. Mas se essas regras fossem aplicadas lá na partida, não existiria a rica sociedade européia de hoje.
Do mesmo modo, como já lembraram diversos analistas, a agricultura atual não existiria se, ao tempo em que foi implantada, vigorassem as regras e o sistema de controle dos danos ambientais de hoje.
Não é preciso mostrar o peso do agronegócio brasileiro. Os preços de alimentos caíram de modo significativo, o que aumentou o bem estar e a saúde das populações mais pobres. Além disso, no nível macro econômico, o agronegócio gera emprego, renda e dólares, que permitiram pagar a dívida externa, que leva à queda de juros, etc…
Mas desmatou, destruiu um monte de coisas, matou espécies pelo país afora. E aí, não deveria ter sido feito?
A resposta é que deveria ter sido feito com mais cuidado. Óbvio, e por isso mesmo não explica nada. O ponto é o seguinte: com as regras ambientais de hoje, se integralmente respeitadas, não teríamos o agronegócio de hoje.
Na medida em que não se esclarece o debate, nem se assumem todas as consequências, a situação fica assim: os empreendimentos legais paralisados por falta de decisão, circunstância agravada por uma legislação que induz a sucessivos adiamentos e os empreendimentos ilegais ? inclusive o desmatamento da Amazônia – em pleno progresso porque o governo não consegue fiscalizar adequadamente.
Uma conspiração para travar o país não faria melhor.
Os países emergentes já partem de uma desvantagem: precisam crescer no momento em que já houve muita destruição. Se as questões não foram expostas bem claramente, não haverá como tomar as decisões corretas.
Em tempo: o colunista não fica no muro. Se a escolha for inexorável ? ou bagres ou usinas ? fica com as usinas, determinando-se que as construtoras teriam que criar os bagres (ou similares) em outros tanques.

Publicado em O Globo, 31 de maio de 2007

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