MODALIDADES DE CAIXA DOIS

. Seguindo o dinheiro     
Vamos supor que o empresário Marcos Valério tenha mesmo emprestado os R$ 39 milhões ao PT, a pedido de seu amigo Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do partido. Vai tomar um calote, é claro, pois o partido, já quebrado e ofendido com os empréstimos oficiais, não vai se responsabilizar pelo ?dinheiro não contabilizado?. Valério, de sua vez, tomou empréstimo casado nos bancos Rural e BMG e, levando calote de seu devedor, o PT, não terá como pagar seus credores. De maneira que, nessa hipótese, o prejuízo vai para os bancos, mas estes têm documentos para cobrar Valério na justiça.     
 Assim, ou Valério toma um prejuízo de R$ 39 milhões, mais juros e correção, ou divide esse prejuízo com os bancos numa renegociação, hipótese plausível, já que parecem todos muito entrosados. Ora, por que Valério e bancos teriam assumido o risco de perder tanto dinheiro assim?     
Duas hipóteses: ou são amicíssimos do PT e de Delúbio ? tanto quanto o ex-secretário do PT Silvio Pereira e o dono da empreiteira GDK César Oliveira, que deu um Land Rover ao petista ? ou, na verdade, não terão prejuízo algum. E neste caso, o dinheiro repassado ao PT (e outros) teria sido reposto por alguma outra fonte.     
Que fontes?     
Várias possibilidades: no caso de Valério e suas agências de publicidade, bastaria o superfaturamento de contratos com estatais ou empresas privadas que quisessem agradar o partido do presidente Lula. No caso das estatais, Delúbio precisaria de ajuda de outras pessoas do partido e do governo, pessoas com autoridade para determinar que tal estatal fizesse contrato especial, digamos assim, com uma das agências de Valério. Aí seria fácil: o empresário teria um lucro extra e o repassaria a Delúbio ou a quem este indicasse. Para contabilizar o dinheiro, tomaria um empréstimo no banco e pagaria com o tal lucro extra.     
No caso da fonte pagadora ser uma empresa privada, o esquema já está aberto. Foi entregue pelo deputado Roberto Brant (PFL-MG). A siderúrgica Usiminas decidiu fazer uma doação de R$ 150 mil para a campanha do deputado a prefeito de Belo Horizonte, no ano passado. Talvez não querendo se comprometer, a Usiminas entregou os 150 mil para uma das agências de Valério, a SMP&B, por dentro e com nota, por conta de serviços de publicidade. E a agência entregou R$ 102 mil ao deputado, por fora, mas retendo R$ 48 mil para pagar impostos, referentes à nota de entrada de 150 mil, e comissões pelo serviço de caixa dois.     
Naturalmente, desde 2003 há muitas empresas querendo agradar o PT.  E isso, a fonte privada, explicaria as dúvidas do ministro Luis Gushiken. Na semana passada, ele observou que a hipótese de Valério financiar o PT com os contratos superfaturados das estatais não fechava, pois o volume da publicidade com o governo não daria aquela folga de R$ 39 milhões. Fazia sentido a dúvida de Gushiken. Dada a quantidade de saques autorizados por Valério, eram necessárias outras fontes ? e estão nas empresas privadas.     
Esse esquema, pelo que se viu até aqui, não serve apenas para campanhas eleitorais. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga, Luiz Carlos Miranda Faria, sacou R$ 68 mil de uma conta da SMP&B para pagar um show de Zezé de Camargo e Luciano, no 1o. de maio. A Usiminas, empregadora dos metalúrgicos daquele sindicato, foi quem pagou à agência. Deve ser já uma influência do governo de esquerda,  essa bela harmonia entre capital e trabalho.     
Mas pode ser também que os bancos pelos quais transita o dinheiro registrem prejuízo em certos negócios, como os empréstimos ao PT ou a Valério e suas agências. Como poderiam ser ressarcidos? Recebendo depósitos e aplicações de empresas e fundos de pensão, estatais e privados. Não é difícil.     
Eis aí as hipóteses: fontes pagadoras existem, no governo, no setor privado que trabalha para o governo ou que precisa agradar o poder político do momento. Mas dado o apurado controle do sistema financeiro, é preciso arrumar veículos e operadores do caixa dois, o próprio Marcos Valério e suas agências de publicidade.     
Parecia um esquema perfeito. Tais agências se prestam a isso, pois normalmente passa por elas muito dinheiro de terceiros. Uma campanha de publicidade inclui gastos variados. Vai desde o pesado pagamento de veiculação na mídia até a compra de sanduíches para o pessoal do set de gravação. O contratante da campanha paga tudo à agência e esta subcontrata todo o resto que, pode ser, por exemplo, consultoria de pesquisa, remunerada na base de homens/hora. Como checar?     
Parece ideal para um crime perfeito.     
Onde furou? No sistema financeiro, que não admite pagamento ao portador. Pelo que se viu até aqui, a agência consegue esquentar a entrada de dinheiro. Estatais e empresas privadas normalmente gastam bastante em publicidade. Um tanto a mais pode passar batido. Pode até ser fonte de desconfiança, mas acaba ficando ao largo da lei.     
Quando o dinheiro sai do banco, entretanto, alguém assina o cheque ou o recibo da ordem de pagamento. Esse alguém pode, depois, repassar para outros sem recibo e sem nota, mas não terá como esconder que recebeu. E, assim, não terá como escapar à pergunta: o que fez?     
Vale para qualquer tipo de transação, de saques em dinheiro a operações com cartão de crédito. Em algum ponto do sistema estará registrado quem gastou, quem pagou, quem recebeu.     
Muita gente se pergunta: como esses caras deixaram tantos rastros? Ingenuidade, amadorismo?     
Há um pouco disso, com certeza. Como um funcionário importante do PT, como Silvio Pereira, pode receber um jipão de presente de um empreiteiro cliente da Petrobrás? E como é que o presenteador manda um assessor de sua diretoria fazer o negócio, pagar e deixar com o vendedor do carro o telefone da sede da empreiteira? Facilitou o trabalho de investigação.     
Mas havia também uma sensação de impunidade, do tipo ?eles não vão desconfiar do PT?. Pessoas que contribuíram para o caixa dois de Delúbio disseram, reservadamente, é claro, que o ex-tesoureiro sempre garantia ter o aval e a proteção do pessoal de cima.     
E este é o último ponto: para montar toda essa lambança,  que já passa folgado dos R$ 100 milhões, Delúbio e Valério precisaram da colaboração de muita, mas muita gente. Vai aparecer mais. Publicado em O Estado de S.Paulo, 25 de julho de 2005

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