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É a dupla Maia-Guedes

Coluna publicada em O Globo - Economia 26 de dezembro de 2019

Carlos Alberto Sardenberg

A Bolsa chega ao final de dezembro batendo recordes seguidos. A valorização passa dos 30% no ano – perdendo, na década, apenas para 2016, quando o valor
das ações subiu quase 40%, na animação com a queda da administração desastrosa de Dilma Roussef.
Foi pura expectativa política. Em 2016, a economia brasileira afundava ainda mais, passava pelo segundo ano de recessão forte. Como a Bolsa poderia subir tanto? Só na base da esperança, que não se confirmou.
Quer dizer, se o critério tivesse sido apenas sair da recessão, então a coisa deu certo. O PIB cresceu em 2017, mas apenas 1% – e empacou nessa casa nos três anos seguintes, incluindo este, que deve terminar com outro pífio crescimento de 1,16%, segundo o Boletim Focus, que resume a opinião dos analistas de fora do governo.
Ou seja, esses números não justificariam os recordes seguidos da Bolsa.
Seria a política de novo?
O último Ibope do ano mostra o presidente Bolsonaro com 38% de ruim/péssimo e 29% de bom/ótimo. Está no negativo, portanto.
Não são apenas os números. O presidente e seus filhos geram crises seguidas. Reparem, não se trata apenas de reagir mal às crises, o que fazem muitos líderes políticos. Trata-se também de cria-las, destruindo aliados, atacando jornalistas e distribuindo grosserias para líderes internacionais.
Para culminar o ano – nesse departamento – a situação do senador Flavio Bolsonaro piora a cada dia e justamente sob acusação de corrupção e mal uso de dinheiro público. Combater isso era um dos principais motes de campanha.
Então, como o ambiente econômico pode estar virando o ano sob expectativas positivas? Há números apoiando essas expectativas: a inflação roda em torno ou abaixo dos 4% anuais; vem assim faz tempo e não há sinal de alta estrutural.
Os juros despencaram – a taxa básica, aquela definida pelo Banco Central – chega ao final de 2019 com 4,5% ao ano, tendo iniciado o período em 6,5%. Para 2020, ninguém espera alta da taxa, alguns acham mesmo que deve cair.
Isso já chegou ao mercado. Em dezembro, até o dia 18, segundo pesquisa do Valor, as taxas do crédito imobiliário variaram entre 7,3% ao ano e 8,29%. Além de baixas, a pequena diferença entre as taxas mostra competição mais acirrada entre os grandes bancos.
Também caíram os juros em outros setores, principalmente naqueles em que o crédito tem garantias executáveis, como em automóveis. Já está valendo o cadastro positivo. Em resumo, pode-se contar por vários meses à frente com inflação baixa e juros em queda, o que estimula consumo e investimentos.
Há também expectativas positivas em relação a concessões e privatizações e ao avanço de reformas.
Como isso pode acontecer com um presidente tão inadequado e despreparado para o cargo?
A explicação está na aprovação da difícil reforma da Previdência – resultado de uma combinação tácita entre a equipe do ministro Paulo Guedes, que entregou e negociou um sólido projeto, e o Congresso Nacional, que comprou a reforma.
Eis o ponto: pela primeira vez temos uma equipe econômica inteiramente liberal e ortodoxa. Governos anteriores, por exemplo, faziam privatizações por necessidade, para arranjar uns trocados ou para se livrar de empresas inviáveis. Paulo Guedes privatiza por convicção de que é o setor privado que gera riqueza, não o Estado. Este, quando não atrapalha, quando não perde dinheiro público, já está muito bom.
E o Congresso certamente mudou, sobretudo com a liderança do deputado Rodrigo Maia, um reformista, também liberal em economia, mas que sabe encaixar essas ideias no mundo político de Brasília.
Portanto, quando o mercado acredita nas expectativas positivas está, na verdade, entendendo que essa combinação política entre Guedes e Maia continua funcionando.
Só pode ser isso. O pessoal acha mesmo que Bolsonaro delega toda a economia para Guedes.
Mas aqui e sobretudo lá fora, há uma bronca evidente com o extremismo de direita de Bolsonaro, que se manifesta em vários episódios, sem contar a falta de educação. A questão é saber se os investidores , especialmente os internacionais, vão prestar mais atenção nisso ou nas boas oportunidades de negócios. Possivelmente, vão combinar intenção de investimento com pressão em favor de determinadas causas. A ver.

 

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