AS ESQUERDAS E AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS
. Artigos Radicais não ganham eleições Não faz muito tempo, um diretor de uma agência internacional de classificação de risco disse que a nota do Brasil não melhora, entre outros motivos, porque um candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, pode ser eleito presidente em 2002. O PT saiu-se bastante bem nas eleições municipais, sua votação nacional aumentou mais de 30% e o partido avançou nas principais cidades. Isso obviamente melhora seu prognóstico para as eleições de 2002. Assim, se as agências de risco estão corretas, os mercados financeiros, que exprimem o sentimento do capital, deveriam ter reagido negativamente, com queda das bolsas, alta dos juros e do dólar. Não aconteceu. O mercado até oscilou bastante na semana passada, mas por outros motivos. Quer dizer que os mercados perderam o medo do PT? A resposta não é simples, mas as eleições podem estar mostrando algo de novo nas esquerdas brasileiras. Marta Suplicy é talvez o fenômeno mais vistoso da ascensão petista. Ela fez 38% dos votos no primeiro turno, na maior cidade do país. É um recorde para o PT, que obteve 26% nas eleições de 1998 (para governador, com a própria Marta) e 32% em 1996. Isso significa que Marta foi além do eleitorado petista. E onde foi buscar esses votos a mais? No centro. Não foi uma campanha esquerdista, nem de longe revolucionária. Houve críticas ao neo-liberalismo, é claro, mas hoje em dia isso não quer dizer nada. O neo-liberalismo é a Geni da política. No essencial, a campanha apresentou propostas para uma administração decente da cidade. Na área social, tão cara às esquerdas, falou-se de programas de geração de emprego e capacitação de mão-de-obra – parecidos a muitos já em andamento, inclusive no governo paulista. O carro-chefe foi a bolsa escola – pagamento de uma renda a famílias que mantenham seus filhos na escola - uma idéia que curiosamente nasceu no pensamento liberal e hoje é de aceitação quase universal. A esquerda gosta do projeto porque é o Estado dando assistência aos mais pobres . Os liberais também gostam porque é um modo de assistência que reduz o papel do Estado. Em vez de mandar o inspetor obrigar as crianças a irem à escola, em vez de comprar e entregar cestas básicas às famílias, o governo dá dinheiro contra a prestação do boletim escolar. Em resumo, o programa de Marta Suplicy seria socialista na França, trabalhista na Inglaterra, social-democrata na Alemanha e democrata nos Estados Unidos. Hillary Clinton, quando for candidata a prefeita de Nova York, vai falar coisa parecida. O que seria uma campanha esquerdista em São Paulo? Não é difícil achar. Durante o andamento da campanha, o PT, ou melhor, setores do PT entraram de cabeça no plebiscito dos bispos que pregava a moratória. Entre outras coisas, perguntava se o governo deveria continuar utilizando parte de sua receita para “pagar dívida aos especuladores” ou se esse dinheiro deveria ser usado em programas sociais. A prefeitura de São Paulo tem dívida interna e externa. Parte dela foi renegociada com o governo federal, pelo que a prefeitura deve utilizar 13% de sua receita líquida mensal para o pagamento de prestações. Perguntada sobre isso, a candidata do PT não vacilou um segundo sequer. Garantiu que vai pagar rigorosamente em dia, embora pretenda discutir novas condições com o governo federal. Será mesmo necessária alguma renegociação, pois a situação financeira da Prefeitura é lastimável. Mas uma coisa é negociar termos do contrato, outra é declarar moratória. Em resumo, enquanto os radicais do PT se envolviam com o plebiscito, Marta tratava de ganhar eleições. Radicais, de direita ou de esquerda, raramente ganham eleições. Vencem em momentos de crise aguda, em situações excepcionais, que não é o caso no Brasil. Só os moderados ganham de modo consistente, a longo prazo, e isso porque a chave da vitória é conquistar o eleitorado do centro. Ou alguém acha que os conservadores eleitores de Curitiba, que deram uma expressiva posição ao candidato petista, de repente tornaram-se esquerdistas? É mais razoável pensar que foi o candidato petista quem caminhou para o centro. Eis aí, diria um fundamentalista: como o mercado sempre antecipa o rumo das coisas, ninguém se assustou com a ascensão petista. Há dúvidas razoáveis sobre esse tipo de sabedoria do mercado, mas duas coisas estão claras: primeira, há um PT que assusta o capital e outro que não assusta; segunda, o que não assusta ganha eleições. Todos os partidos de esquerda europeus descreveram essa mesma trajetória, do esquerdismo revolucionário aos programas reformistas no centro do espectro político. Na América Latina, idem. O Partido Socialista chileno, o mesmo de Salvador Allende, deu o atual presidente do país, que mantém uma das melhores notas entre os partidos emergentes. Esse fenômeno estava atrasado no Brasil. Talvez esteja começando por algumas das principais prefeituras. Já se pode imaginar como seria a transposição do cenário paulistano para o nacional. Por exemplo, um candidato do PT que manifestasse sua adesão a alguns princípios de política econômica hoje considerados universais: as contas públicas têm que estar sempre equilibradas; não pode ter inflação; dívidas se pagam; economias abertas funcionam melhor. Veremos. Mas antes de tudo, as administrações petistas nas principais cidades passarão pelo teste fundamental do bom governo – o governo de todos, não do partido. Ou seja, os novos prefeitos petistas precisarão mostrar como lidam com seus radicais e suas corporações de funcionários públicos. Como está em vigência a Lei de Responsabilidade Fiscal, que impõe severos limites ao gasto público, os novos prefeitos freqüentemente terão que fazer escolhas do tipo: mais dinheiro para o bolsa escola ou para o funcionalismo? Tempos interessantes. (Publicado em O Estado de S.Paulo, 09/10/2000)

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